Leucemia

by - sábado, setembro 19, 2015


O ser humano tem o hábito de achar que nunca nada de mau lhe vai acontecer. Que as desgraças só acontecem aos outros. Bem... isso não é bem assim. Vai sempre haver aquele dia em que nós, os nossos irmãos, pais, amigos vão ser "os outros", e bem, provavelmente aí tudo vai perder o sentido.

Bem, hoje venho falar-vos da leucemia. Como devem saber leucemia é um tipo de cancro. É quando se começam a formar no organismo glóbulos brancos anómalos e imaturos. Normalmente isto seria apenas mais uma das milhentas informações que capto na aula de ciências, retenho, e passado um mês, talvez dois, esqueço. Mas não. Desta vez foi diferente, infelizmente.

Dia 7 de maio de 2015, é um dos dias que lembrarei eternamente, um dos dias que mais me marcou. Marcou-me a mim, marcou os que a rodeavam, sobretudo os que, como eu, lhe tinham amizade. Foi o dia em que recebi a notícia. Ela tinha leucemia. Fui a primeira da escola a saber. Tive de carregar aquela bomba e largá-la o mais suavemente que conseguisse na escola, se é que isso era sequer possível.

Ela tinha leucemia. Ela tem leucemia. Passado uma semana fez 15 anos. Fez 15 anos no IPO, em isolamento. Com um vidro a separá-la de tudo e todos. Do som das nossas vozes, dos nossos abraços, dos nossos presentes, dos nossos postais, do próprio bolo de aniversário, partido assim no meio do corredor do IPO às 5h da tarde do dia 15 de maio.

Muitas vezes, quando surgem nas redes sociais fotografias de crianças (e adultos) com cancro, a dizer partilha esta imagem se acreditas que tem cura e outras coisas do género, a maioria das pessoas partilha. Partilha as imagens daquelas crianças carecas mas sorridentes, pensamos naquilo por 30 segundos, talvez um ou dois minutos os mais sensíveis, mas ninguém vai fazer nada. Partilhar essas imagens não adianta de nada. Não vai fazer com que alguém se cure milagrosamente nem vai extinguir o cancro da face da terra.

A verdade é que a realidade que se vive dentro dos hospitais oncológicos como o IPO é bastante mais dura. Lá não vemos sorrisos nem ouvimos gargalhadas. Lá ouvimos choros, vemos lágrimas. Vemos crianças, algumas que ainda nem falam e já têm de conviver com esta doença que as quer tomar do colo dos pais.


Não é fácil. Nunca é. Não é fácil vermos que uma doença nos quer afastar das pessoas de quem gostamos. É muito difícil. Mas aprendemos a lidar. Eu aprendi.

Aprendi a lidar com a ausência deixada por ela na escola. Aprendi a lidar com os sms que são trocados semanalmente com a mãe quando as visitas não são possíveis. Aprendi a ir de autocarro para Lisboa. Aprendi  a lidar com o facto de não a poder abraçar. Aprendi a lidar com o vidro que nos separa quando estamos frente a frente. Aprendi a lidar com o sussurro da voz dela ao telemóvel. Mas sobretudo aprendi que devemos sempre dar o melhor de nós às pessoas que nos rodeiam, sobretudo aquelas de quem mais gostamos, mas de quem nos vamos afastando por razões estúpidas. Aprendi, sobretudo, a dar tempo ao tempo, a rir quando me apetece, e a chorar quando dá vontade. Porque de um momento para o outro podemos perder tudo.
Margarida

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3 comentários

  1. Sem dúvida que sim, o que se vive dentro do IPO é um ambiente pesado, só quem lá entra sabe dar valor, nunca lá entrei, nem nunca estive na tua situação,deve ser horrível saber que uma pessoa que gostamos está nessa situação, aprendesse muito com isso, se precisares de falar podes sempre contar comigo.

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  2. Não sei o que vives nem o que a tua amiga está a sentir, mas desejo tudo de bom para ambas. Ninguém, mas ninguém mesmo merece sofrer assim uma doença é tão destrutivo a nível físico como metal e na vida das pessoas e nessa parte eu posso, infelizmente, dizer que sei do que estou a falar.
    Força, muita força para ti e para essa tua amiga. E que ela tenha sempre o teu apoio porque, pelo texto lindo que escreveste, deves ser uma maravilhosa amiga.
    Boa sorte e um beijinho muito grande para ambas.

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  3. Sei bem o que isso é, e digo-te que adorei o teu texto.
    Não há nada que possas fazer, nem tu nem ninguém, a não ser fé ou esperança e principalmente força, porque são as únicas coisas que ''melhoram'' este tipo de situações.
    Por mais complicado que seja, o importante é ter força. Acredita que sei do que falo. Se precisares de alguma coisa não hesistes em falar. :)

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