Um Grito no Vazio | What it feels like to be depressed

by - quarta-feira, novembro 08, 2017


Há muito tempo que não consigo escrever. Há demasiado, para dizer a verdade. Mas talvez esse seja um efeito secundário desta minha depressão. Deixo também aqui explícito que a partir deste dia sei que não escrevo apenas para desconhecidos e amigos virtuais, a partir de hoje sei que estou também a escrever para a minha irmã de 12 anos (meu amor, peço-te desculpa por tudo o que eventualmente já leste acerca de mim e que não sabias até aí. Desculpa porque te amo e não queria que soubesses, não queria que sofresses).

Mas decidi que hoje é dia de falar a minha verdade. Hoje é dia de explicar a minha pessoa (sobretudo a ti, porque sei que esta é a conversa que nunca conseguiremos ter). Hoje é dia de clarificar o que sou e o que sinto, porque já o devia ter feito há mais tempo, porque ao descomplicar os sentimentos, ao po-los por escrito, estou também a descomplexá-los na minha cabeça. É como se saísse do meu corpo, deixasse de ser eu o problema, e passasse a olhá-lo a partir de fora, como se olhasse para outra pessoa.


Mal sabia eu o que estava por vir...
... não foi culpa de ninguém!


Há coisas que estão geneticamente destinadas a acontecer... e a depressão foi só mais uma característica que veio impressa no meu genoma tal como os meus olhos castanhos e o cabelo ondulado.

Inicialmente era só um sussurro que vinha lá do fundo de um recanto sombrio e longínquo. Mas com o tempo esse sussurro foi-se transformando numa voz segura, já não estava num recanto longínquo. Disse-me que me afastasse dos outros, que só lhes causava sofrimento, que todos estariam melhor sem mim, e eu, coitada, com 12 anos fui acreditando e obedecendo.


Durante anos culpei-me por tudo...
...hoje sei que não podia ter feito nada!


Entre o início e o agora passaram já muitos anos. Muitos anos, muitos traumas, muitos choros, muito sangue, muitas cicatrizes, muitas zangas e sobretudo muitos pensamentos. Já tomei comprimidos e eventualmente acabei por ser diagnosticada com depressão (já tardiamente) em certa altura.


Mas o que é a depressão?


Ter depressão não é "fazer-se coitadinho, vítima" e não se cura por "mudar o olhar sobre a vida", e também não é só estar triste durante uns dias por alguma razão em concreto.

Depressão é algo bem mais complexo do que isso.

A depressão é, para mim, um turbilhão de sentimentos e emoções negativos que me tomam de uma maneira incontrolável e avassaladora. Há dias em que a simples tarefa de sair da cama e cumprir a rotina matinal se traduz numa dor acutilante que me paralisa. E tudo isto por razão nenhuma. Abrir os olhos pela manhã e sentir-me como se não os tivesse fechado durante toda a noite. É um cansaço da alma sem qualquer explicação fácil.

Mas não é constante. Tem fases. Altos e baixos, consigo parecer bem a grande maioria do tempo. Mas isso não quer dizer que esteja tudo bem, e temos de parar de dizer que só está deprimido quem quer. Sim, consigo controlá-lo, às vezes... nem sempre. Aprendi a desenvolver mecanismos de "sobrevivência", o que não impede que a doença lá continue.

E peço desculpa se isto foi só mais uma dissertação sem sentido... mas precisa de expor aqui isto. Obrigada.

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1 comentários

  1. Tenho familiares meus que sofrem de depressão, portanto sei a luta difícil que estás a travar. A depressão muitas vezes não tem causa, e outras tantas é por causa genética ( como foi o teu caso), e muita gente não compreende isso. Infelizmente, a depressão ainda é um tema tabu em Portugal, e muitas pessoas têm medo de falar sobre o assunto. Portanto, admiro a tua coragem em partilhares o teu testemunho. Desejo-te muita força.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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